Nueva Correspondencia Pizarnik

(English version)

A poeta sangrenta?

“Ahora esas dos hojas con su escritura están usadas y desgastadas (por mis ojos) porque las llevo conmigo como quien lleva los obligatorios documentos de identidad. Y en verdad son eso.”
– Alejandra Pizarnik, Carta a Antonio Porchia

Nueva Correspondencia Pizarnik é uma coletânea de cartas enviadas por Alejandra Pizarnik, organizadas por Ivonne Bordelois e Cristina Piña. Compiladas em 40 seções de extensões variáveis, de acordo com os respectivos destinatários, as cartas compreendem o período de 1955 até os meses que antecederam o suicídio da poeta, em 1972. Cada seção conta com uma breve introdução acerca da biografia do respectivo destinatário e das relações por esse mantidas com Pizarnik. Entremeados ao texto, temos fac-símiles de algumas das cartas compiladas na obra, ilustradas com desenhos e colagens de autoria da poeta.

Alfaguara Argentina
2014
464 p.
Goodreads

A coletânea, ampliada em relação às anteriormente lançadas – Correspondencia Pizarnik (Seix Barral, 1998), Dos letras (March Editor, 2003) e Nueva correspondencia Pizarnik (Posdata, 2012) -, conta com textos até então não publicados e missivas enviadas a novos destinatários. Entre os correspondentes incorporados na presente edição, encontram-se, entre outros: Antonio Beneyto; Raúl Gustavo Aguirre; Manuel Mujica Lainez; Esmeralda Almonacid; Rubén Vela; Silvina Ocampo; Adolfo Bioy Casares; Julio Cortázar; Antonio Fernández Molina; Sylvia Molloy.

Nesse volume relativamente extenso, temos correspondências, postais e dedicatórias escritas a amigos, colegas, familiares e a alguns dos expoentes da cena literária argentina, na segunda metade do século XX. A obra incluiu, ainda, as cartas enviadas a Beneyto, por Anna Becciu e Martha Moia, por ocasião do falecimento de Pizarnik.

Para além do trabalho minucioso de pesquisa e compilação, a coletânea guarda o mérito de apresentar facetas ainda relativamente inexploradas de Pizarnik. Aprisionada pela crítica à imagem de poeta atormentada e maldita, a autora – não sem ressentimento, como atestam seus Diarios – viu restarem alijados do que se convencionou pensar como o “canon Pizarnik” os textos obscenos e paródicos de sua fase tardia (como “La bucanera de Pernambuco o Hilda la polígrafa” e “Los poseídos entre las lilas”), marcados pelo recurso ao grotesco e ao humor desencantado, por vezes negro.

Muito diferente, porém, do bibelô lírico e trágico a que fora reduzida pela crítica, a Alejandra que se desenha nas cartas aqui reunidas revela-se um personagem tão híbrido quanto o foi sua escrita: ao desespero, somam-se olhar crítico, instinto editorial e, principalmente, chiste, irreverência e senso de humor. O elemento lúdico e transgressor, com o qual, por vezes, a autora deforma textos e imagens, faz-se presente na maior parte das cartas. Esse humor deformado/ deformador, que perpassa todo o período abrangido pelas missivas aqui reunidas, assume, em algumas delas, um caráter discretamente corrosivo.

Na correspondência aqui compilada, a niña doliente é dotada de um forte tom jocoso, até mesmo bufão. A poeta dessa Nueva Correspondencia desdobra-se em múltiplas assinaturas: Alejandra (como ficou conhecida), Flora (seu nome de nascimento é Flora Alejandra Pizarnik), Buma (apelido que lhe deram seus familiares, e que significa flor, em ídiche), ou apenas Blímele (florzinha).

Nenhuma dessas facetas pode ser reduzida ao viés assexuado (la niña abandonada) pelo qual Pizarnik é habitualmente retratada: a correspondência com Silvina Ocampo (um de seus grandes amores) e a carta escrita por Martha Moia (com quem Pizarnik manteve um relacionamento amoroso) desmentem qualquer tentativa (moralista?) de reducionismo. A Alejandra das cartas é também uma amante e amiga generosa, brincalhona, boba, confidente, sarcástica, escabrosa.

“Pero vos, mi amor, no me desmemories. Vos sabés cuánto y sobre todo sufro (en cursiva en el original). Acaso las dos sepamos que te estoy buscando. Sea como fuere, aquí hay un bosque musical para dos niñas fieles: S. y A….” – Alejandra Pizarnik, Carta a Silvina Ocampo

A coletânea ilumina não apenas aspectos pouco explorados da personalidade da autora, como também alguns elementos de sua obra poética. Na troca de cartas entre Pizarnik e seus contemporâneos, podemos entrever as formas pelas quais a poeta analisava os poemas e livros que lia, a maneira como estabelecia comparações entre essas obras e, principalmente, o modo como delas se apropriava em sua escrita. As cartas não apenas lançam luz sobre os autores que mais marcaram Pizarnik, como também contextualizam o processo de criação de alguns dos textos mais conhecidos da escritora.

“No te envío poemas porque están en laboratorio. Estoy en un gran proceso de síntesis. Muy pronto te enviaré algo, unos pocos pájaros de fuego, una breve palmada en el hombro tieso de la señora muerte.” – Alejandra Pizarnik, Carta a Rubén Vela.

À diversidade de destinatários a que escrevia Pizarnik corresponde a multiplicidade dos temas que abordava e dos formatos pelos quais o fazia. Cartões postais e papéis coloridos somam-se a rascunhos de poemas, pequenos desenhos e colagens; cartas confessionais e profissionais embaralham-se. A versatilidade de suas leituras impede, ainda, qualquer itinerário pré-determinado: às muitas referências a Artaud, Orozco, Michaux, Mallarmé, Djuna Barnes, Blanchot e Rimbaud, Pizarnik costura, em sua correspondência – ao acaso, como um relicário de objets trouvés –, trechos de letras de tangos arrabaleros e canções populares.

Os tons adotados nas correspondências variam, adaptam-se ao respectivo interlocutor. Humor e delírio, chiste e desespero, obscenidade e delicadeza escorrem em espiral pelas cartas, e deságuam uns nos outros. “La obscenidad no existe; existe la herida”, escrevera Pizarnik, na peça Los poseídos entre lilas. Em carta a Eugenia Valentié, acerca de La condesa sangrienta, a autora completa: “Solamente vos, en este país inadjetivable, comprobás con notable facilidad y prodigiosa rapidez, que el personaje – esa Érzebet increíblemente siniestra – no es una sádica más sino alguien que pertenece a lo sacro: eso a lo que intentamos aludir en las palabras del sueño, las de la infancia, las de la muerte, las de la noche de los cuerpos. Solamente vos comprendiste (atendiste a) mi última frase: “la libertad absoluta? es terrible” que tanto escandalizó a los izquierdistas de salón que, para fortuna de ellos, nada saben de la falta absoluta de límites, sinónimo de locura, de muerte (y de la poesía, de la mística?)”

Debaixo da voz torturada dos poemas, fazem-se ouvir muitas outras vozes, na prolífica correspondência de Pizarnik. Em meio a confidências, pedidos nem sempre discretos de socorro, jogos de palavras (e de amor), deparamo-nos – de repente, na biografia em recortes que se entrevê nas cartas – com esse lugar quase impalpável de encontro entre vida e obra, criador e criatura, escrita e leitura, remetente e destinatário.

Texto escrito por Juliana Brina. Publicado originalmente aqui.

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