Sinuca embaixo d’água

(English version)

O enredo do primeiro romance de Carol Bensimon, sob a atmosfera abafada de um jogo tenso, com a lentidão e o peso dos lances medidos, escreve uma ausência: a bola branca que move as demais e impulsiona a partida.

Companhia das Letras, 2009.

Antônia, a personagem principal da narrativa, é parte da história e de seu conflito, mas não compõe diretamente a trama: desde o princípio, somos informados de que a jovem morrera precocemente em um acidente de carro, em circunstâncias pouco esclarecidas. Sua ausência, porém, empresta ao enredo o seu núcleo, à medida que os demais personagens nos revelam, gradativamente e sob diferentes perspectivas, as múltiplas facetas da jovem.

Sob o efeito aglutinador do afeto e da dor, sete personagens-narradores, como jogadores ao redor de uma mesa de bilhar, circundam a lacuna deixada por Antônia, e se alternam – capítulo a capítulo, jogada a jogada – no ato de reconstruírem, em solilóquios, de modo íntimo e angustiado, o que se passara antes e depois do acidente que vitimara a garota. O romance é construído a partir da alternância entre os depoimentos dos personagens, que, como jogadores que se revezam a cada lance, passam o taco um ao outro, ao nos relatarem o que sabem. A narração se dá em primeira pessoa e em fluxo de consciência, por meio de uma linguagem coloquial, com marcas de oralidade, mas pontuada por metáforas e entrelinhas.

Cada capítulo é narrado pelo personagem que lhe dá título. Em primeiro plano, temos Camilo, Bernardo e Polaco, os narradores mais frequentes – e mais fortemente tocados pela falta de Antônia. Camilo, o irmão da garota, alimenta tendências auto-destrutivas e um sentimento de culpa, e é um rapaz rebelde, inconsequente, permanentemente à margem de si e dos fatos. Nele, a dor pela morte da irmã faz-se errática, ambígua, entrecortada. Bernardo, amigo de Antônia e por ela apaixonado, é poeta, gosta de Jazz e cursa Letras. Sua dor manifesta-se por meio da tentativa incessante de compreender como o acidente aconteceu. Por fim, Polaco, um homem que fugiu de uma cidade do interior, em circunstâncias nebulosas, é dono de um bar decadente, ponto de encontro dos personagens, localizado às margens de um lago sujo, próximo à casa da família de Antônia. Sua dor é marcada por uma ausência anterior que compõe uma trama à parte.

Temos, ainda, quatro personagens-narradores periféricos (Helena, Gustavo, Lucas e Santiago), que atuam como os jogadores que, à espera do próximo jogo. apenas assistem ao que se passa na mesa de bilhar, e contribuem para a reconstrução do pano de fundo da história.  Helena é uma jornalista que está de plantão na noite do acidente; Gustavo é estagiário em uma agência de publicidade e está envolvido em uma campanha educativa sobre violência no trânsito; Lucas é um menino que mora perto do local do acidente, ao qual assiste pela janela; Santiago é um forasteiro que aparece, de modo imprevisto, na história e na cidade.

Todos os personagens, em maior ou menor medida, terão suas vidas tocadas, re-significadas ou completamente alteradas pela morte de Antônia. O livro explora, portanto, uma narrativa em dois eixos temporais que se entrelaçam: o antes e o depois do acidente. Antônia apenas se define por meio do mosaico das perspectivas dos demais personagens, e é evocada a partir de objetos triviais (um catavento, uma fotografia). Por si mesma, ela não age na trama, mas sua lacuna é fonte direta da ação dos demais, como a bola branca no jogo de alternâncias narrativas proposto por Bensimon.

Ponto forte do livro é a elaboração estética da realidade de uma geração fragmentada, desalentada, perdida – elaboração essa que não se limita à referência a elementos da cultura contemporânea (o rock, a literatura, o jazz, os bares). Como em uma sinuca de bico, nós nos vemos trancados na mente dos personagens-narradores, e com eles remoemos, capítulo a capítulo, uma morte e várias dores. Os personagens-narradores raramente dialogam entre si, e também se encontram trancados em seu monólogo interno, como quem se afoga. O texto enxuto, seco, rarefeito – e, por vezes, estático – insinua a exata medida da intensidade emotiva dos personagens, mas segura as rédeas do drama.

O ponto fraco da obra reside, para mim, apenas em um detalhe: embora cada dor seja única e intransferível, as vozes de cada personagem-narrador, por vezes, confundem-se. Embora as diferentes perspectivas de cada narrador possam ser facilmente identificadas, as vozes que narram se assemelham. A linguagem utilizada não sofre grandes variações de personagem a personagem, e alguns recursos linguísticos (como o uso dos parênteses) são empregados indistintamente. Caso os capítulos não fossem encabeçados pelo nome do personagem que os narra, seria mais difícil discernir entre os narradores. Suas vozes não são plenamente reconhecíveis, e as falas são consideravelmente lineares. A polifonia do romance não se encontra na linguagem nem no registro, mas nos diferentes pontos de vista revelados sobre um mesmo fato – e nas diferentes dores por esse causadas.

Em Sinuca embaixo d’água, os personagens são peixes abissais, submetidos à pressão de um bloco de água que lhes transforma os movimentos. Interna e externamente, eles percorrem os escombros, as sobras do acontecido. O enredo se faz a partir dos objetos revelados à superfície e trazidos à areia depois do naufrágio. Os narradores estão emparedados pelas ruínas do passado – e do bar do Polaco -, e, como quem repisa a memória, caminham descalços no chão alagado e repleto de vidros quebrados. Oferecem, porém, com sua fala entrecortada, os cacos afiados com os quais lemos essa história.

Texto escrito por Juliana Brina. Publicado originalmente aqui.

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