Floresta Escura

(English version)

Frequentemente, tendemos a pensar em ficção como um espelho voltado para a realidade. Não importa se se trata de um espelho claro, nublado ou descaradamente distorcido – nosso olhar raramente muda de direção. Alguns livros, no entanto, tentam atravessar o espelho: eles direcionam o nosso olhar para longe do que é refletido na superfície, e se voltam para o próprio ato de segurar um espelho. Alguns livros dão um passo para trás: eles descolam a superfície de vidro e talham-nos a consciência de uma abertura, um pequeno rasgo no tecido da realidade. Eles parecem sugerir que nossa tentativa de ver é, em si mesma, um espelho preso a um espelho preso a um espelho – ficções embutidas em ficções, histórias dentro de histórias dentro de histórias. O romance Floresta Escura, de Nicole Krauss (tr. Sara Grünhagen, 2018. Original: Forest Dark, 2017), é uma tentativa de se fazer exatamente isso: Lech-Lecha.

Companhia das Letras, tr. Sara Grünhagen, 2018, 304 p. Originalmente publicado em ingles, em 2017.

O romance segue dois fios narrativos em capítulos alternados: na narração em terceira pessoa, encontramos Jules Epstein, um advogado novaiorquino de 68 anos; na narração em primeira pessoa, temos Nicole, uma escritora de 39 anos que vive no Brooklyn. Ambos são judeus-americanos ricos e bem sucedidos. Quando os encontramos, eles estão perdidos, procurando por algo que não conseguem sequer colocar em palavras.

O livro começa com o misterioso desaparecimento de Epstein em Tel Aviv, e seguimos a história de como ele chegou ao ponto de desaparecer. Logo após o falecimento sucessivo de seus pais, Epstein dissolve seu casamento de 36 anos, deixa sua parceria em um escritório de advocacia, começa a ler livros sobre misticismo e a doar grande parte de sua propriedade. Atraído para seu país de nascimento, Epstein parte para Tel Aviv, onde fica hospedado por um tempo no Hilton Hotel. Depois de um estranho sonho, ele doa US $ 2 milhões para plantar uma floresta no deserto, e parte em direção à praia de Jaffa.

Em seguida, saltamos para a parte narrada por Nicole. Uma romancista de sucesso e mãe de dois filhos, ela tem sofrido de bloqueio criativo, insônia e, possivelmente, algum tipo de transtorno dissociativo. Quando a encontramos, seu casamento está em crise e ela está em uma espécie de limbo. Obcecada pelo Hilton Hotel, onde fora concebida e passara a maior parte de suas férias de infância, Nicole viaja para Tel Aviv, em busca não apenas de um possível enredo para seu livro, mas principalmente em busca de si mesma. Em Israel, ela é procurada por Eliezer Friedman, um professor de literatura aposentado que pode ou não ser um agente da Mossad. Friedman desperta o interesse de Nicole ao lhe contar uma história extraordinária: Kafka teria falsificado sua própria morte em 1924, emigrado para a Palestina e vivido, até seu falecimento verdadeiro em 1956, como jardineiro, sob o nome de Anshel Peleg. Atraída pelo professor, Nicole é levada ao deserto, onde é deixada com um cachorro e uma mala velha supostamente repleta dos manuscritos inacabados de Kafka.

Nicole e Epstein são duas histórias paralelas que seguem o mesmo caminho físico e metafísico. Krauss tece novas camadas de significado, ao manter esses personagens em um diálogo silencioso – e imaginário – entre si. Ambos os personagens perseguem questões paralelas, e oscilam à beira de algum tipo de metamorfose: Epstein, um homem dedicado ao reino material, faz um movimento lento mas constante em direção ao reino espiritual, e começa a questionar todas as certezas sobre as quais ele construira sua vida; no mesmo sentido, Nicole começa a pensar que as formas que sua vida assumira – como mãe, esposa e escritora – eram muito restritivas e não mais lhe serviam. Sua luta para encontrar uma nova forma para sua escrita espelha sua necessidade de encontrar novas formas para sua vida, e encontra na jornada de Epstein seu eco ficcional: enquanto, em Epstein, temos a história de como ele desaparece; em Nicole, temos a história de como ela se reencontra. Ambos os personagens estão a caminho de algum tipo de purgamento emocional, algum tipo de ruptura rumo à ausência de forma. Nós os encontramos no exato momento em que eles ainda são permeáveis, pouco antes de passarem por mudanças e assumirem uma outra forma.

Nicole e Epstein deixam tudo de lado e vão para o Hilton em Tel Aviv, em uma tentativa de se reconectarem com seus passados. Em Tel Aviv, os dois encontram personagens que agem como “sedutores espirituais” e os atraem para uma jornada metafísica: o Rabino Klausner tenta convencer Epstein de que ele é um descendente do rei Davi; Eliezer Friedman tenta convencer Nicole de que ela é a pessoa certa para terminar uma obra obscura de Kafka. Guiados, através de suas florestas escuras pessoais, por Klausner e Friedman, Nicole e Jules serão atraídos para o deserto, onde cada um deles passará por algum tipo de metamorfose, em circunstâncias bizarras: Epstein interpretará o papel do rei bíblico Davi, para um filme; e Nicole será deixada sozinha e febril em um chalé que pode ou não ter pertencido a Kafka.

Em Floresta Escura, temos a história de dois personagens que nunca se conhecem, mas compartilham um táxi: voltando para Tel Aviv, Nicole pega o mesmo taxista que, ouvindo música de Mizrahi no rádio, acabara de deixar Epstein no deserto. Mas também temos a história de um narrador e seu personagem fictício; a história de uma escritora que encontra seu romance no deserto – a personagem Nicole, que, tentando escrever seu livro, alterna capítulos com seu personagem fictício, Epstein. Eles se encontram em seus desertos pessoais, e eles nunca se encontram. Somos jogados no coração do paradoxo. Temos a história de Epstein, que pode ou não ser um personagem de Nicole; e a história de Nicole, que pode ou não ser uma personagem de uma história kafkiana, mas que certamente é uma personagem de Nicole Krauss.

E, finalmente, temos as pegadas deixadas por uma autora que escolheu expandir seu senso de realidade: a história de Nicole Krauss escrevendo sobre si mesma, mas não completamente, e com um grão de sal – como personagem que também está escrevendo sobre si mesma (a narradora Nicole) através de outro personagem (Epstein). Aqui devo confessar que, diferentemente da maioria dos críticos, que parecem ansiosos por enumerar os precursores de Krauss ​​(W. G. Sebald e Philip Roth são os mais mencionados), não estou exatamente interessada nas influências literárias da autora. Ao contrário, eu prefiro explorar as obsessões de Krauss: as inserções e fotografias ensaístas intercaladas ao longo do livro; o Tel Aviv Hilton; as idéias de lar e pertencimento; o deserto como um lugar de revelação e transformação (no primeiro romance de Krauss, “Man Walks Into a Room”, de 2002, também temos um homem que desaparece no deserto); a ideia do eu como ficção, e a ideia de ficção como reflexo da perspectiva e da memória do autor.

E, finalmente, a obsessão de Krauss por Kafka, com quem ela tem mantido um diálogo durante grande parte de seu trabalho. Floresta Escura é um livro repleto de Kafkas: o título original (Forest Dark), tirado da tradução de Longfellow das primeiras linhas do “Inferno” de Dante (“Midway upon the journey of our life/ I found myself within a forest dark,/ For the straightforward pathway had been lost”) faz-me lembrar de que o poeta WH Auden certa vez chamou o próprio Kafka de “o Dante do século XX”. Além disso, o primeiro título que Krauss tinha em mente para o livro (Gilgul, que agora nomeia um dos capítulos da obra) não é apenas um conceito cabalístico que significa reencarnação e transformação, a idéia de um ciclo ou uma roda (a transmigração da alma, que gira e gira), mas também se refere à tradução de A Metamorfose em hebraico e iídiche: Der Gilgul.

Se olharmos atentamente para a floresta de Krauss, encontraremos muitas alusões aos livros de Kafka: na primeira página, num apartamento em ruínas em Tel Aviv, uma barata pode ter sido a última a ver Epstein (ou talvez o inseto era o próprio personagem, transubstanciado?); quando Epstein se livra de suas posses e de sua antiga personalidade e finalmente desaparece, ele me lembra do artista da fome – o único que escapou enquanto o público permanecia, inconscientemente, em uma espécie de prisão; vale lembrar a própria idéia de metamorfose, pela qual passam os personagens principais; e, por fim, a questão da partida e da impossibilidade de chegada, nas palavras de Judith Butler.

As seções de Nicole, em particular, não apenas exploram a biografia de Kafka e a luta sobre quem é dono do autor e sobre a posse de seus documentos, mas também apresentam uma interpretação literária de sua obra. Além disso, a história de Nicole é moldada de uma forma kafkiana e encena muitas das obsessões do autor: a história de uma personagem presa por forças superiores, invisíveis e contraditórias; uma personagem coagida a participar de um sistema que ela não entende completamente. Nicole está presa em seu papel, sua vida, seu casamento, seus livros? Ela está presa pelo Mossad, pelo Estado de Israel, por Kafka, pela autora Nicole Krauss? Ela está presa dentro de sua própria mente? Talvez a mala que ela esqueceu no deserto não seja a de Kafka, mas a de Epstein. Talvez ela tenha inventado a mala e o próprio Epstein. Talvez ela tenha sonhado tudo isso.

O tema (muito kafkiano) do Doppelgänger também está no centro do romance. Epstein e Nicole são atormentados pelas vidas que poderiam ter vivido e pelas pessoas que poderiam ter sido. Epstein nunca é encontrado, mas sua família fala de sua transubstanciação em vez de morte (talvez ele se transformou em um inseto?). Para Nicole, em particular, há uma sensação de que essas vidas paralelas estão realmente acontecendo em algum lugar: ela sente que ocupa muitos espaços diferentes ao mesmo tempo (sua casa, sua imaginação e o deserto, talvez?); ela tem um duplo em algum lugar (a personagem Nicole e a autora Nicole, talvez?); e ela é jogada na vida do duplo de Kafka, no relato contrafactual da biografia do autor, no qual esse (bem como Epstein e a própria Nicole) toma sua única chance de liberdade e transformação e escapa para a Palestina (um passo que o Kafka real até mesmo contemplou em suas cartas e diários).

Se acedermos à leitura de Thomas Mann, segundo o qual as obras de Kafka seriam alegorias de uma busca metafísica por Deus, talvez possamos ver Epstein sob uma nova luz. À medida que sua personalidade começa a espelhar a do rei Davi, Epstein entra no deserto vestido como ele, e depois é pego no meio de uma tempestade, como no Salmo 69, que ele estava a ler pouco antes de desaparecer (“Rescue me, God, for the waters have come up to my neck. And there is no place to stand I am come into deep waters, where the floods overflow me”). Epstein descarta sua personalidade e suas certezas; ele se desfaz de tudo que constituíra sua existência até então; ele começa a se questionar, a criar espaço para perguntas (“a space that seeks to be filled again with its portion of infinity”). Finalmente, ele sai de si mesmo para abrir espaço para o que Deus pretendia que ele fosse (out of himself so that he might make space for what God intended him to be. A fé o tenta, e ele cai na graça e em si mesmo, desaparecendo, como se em um passo de dança. Nesse ponto, as referências dispersas de Nicole à natureza fugidia da dança (em oposição à assim chamada natureza permanente da escrita) podem ser sua maneira pessoal de tropeçar na graça, enquanto Epstein, diferentemente, alcança esse estado precisamente através da palavra, da leitura dos Salmos.

Os tópicos da busca alegórica, da metamorfose e do duplo estão entrelaçados: como as histórias de Nicole e Epstein, eles se iluminam silenciosamente. Ser escritor é, em si mesmo, uma experiência de criar doppelgängers e de viver em contradições e histórias paralelas. Nicole é tanto uma faceta de Krauss quanto Epstein: não é novidade para nós que escrever sempre tem um elemento de autoficção.

No entanto, ao criar um personagem que compartilha seu nome, que também é escritor, mora no Brooklyn e tem dois filhos, Krauss nos induz a sentir que sabemos mais do que realmente sabemos; depois, ao submeter esse personagem às situações mais absurdas, a autora quebra nossas expectativas, e nos convida a questionar nossas certezas (como fez Epstein) e a ampliar nosso senso do que é real. O que é realidade? Pode uma situação contraditória, ficcional ou mesmo surreal ser verdadeira? A invenção da personagem Nicole é tão subjetiva e fictícia quanto a criação do eu real de Nicole Krauss? Ambos são um tipo de narrativa, um constructo? Em caso afirmativo, a realidade é maleável, inflexível ou algo entre esse dois pólos? A personagem Nicole não é necessariamente Nicole Krauss, tanto quanto nossa imagem de Kafka, dada a nós por Max Brod, não é necessariamente o verdadeiro Kafka. O jardineiro em fuga na Palestina, como um passo muito desejado, mas nunca aceito, também reivindica seu quinhão de realidade. “What more would you know about me than you know about Hell?, perguntou Kafka em uma carta para Oskar Pollak. “Estamos tão desamparados quanto as crianças perdidas na floresta.”

Krauss parece explorar aqui não apenas como é possível ser duas coisas (a autora Nicole Krauss e sua personagem Nicole) ou estar em dois lugares ao mesmo tempo (perdido no deserto e atravessando uma floresta escura), mas também o ponto onde alguém consegue se libertar de sua própria narrativa, da construção do eu; o ponto de fuga que existe quando alguém tropeça na ausência de forma, no vazio e, finalmente, na graça. Se vivemos o tempo todo com muitas versões de nós mesmos, e se todas essas versões têm elementos de verdade e ficção entrelaçados – será que isso quer dizer que estamos sempre percorrendo as entrelinhas, o caminho que há entre essas duas versões? Como se tivéssemos sido, a um só tempo, expulsos do e continuamente mantidos no paraíso?

A natureza fundamentalmente contraditória da escrita – esse percorrer o espaço intermediário – é outra das obsessões de Krauss. As perguntas de Nicole sobre forma e ausência de forma refletem suas dúvidas sobre a vida. Ela suspeita profundamente de narrativas que se recusam a acomodar o paradoxo e o caos (o que equivale, para ela, a quebrar o espírito de um animal ou a ler para seus filhos, iniciando-os na convenção), assim como ela duvida dos papéis sociais (esposa, mãe, escritor) ela escolheu para sua vida. Mesmo a escrita, que começara como um ato de liberdade, havia se transformado em outra forma de prisão para Nicole. “O caos é a única verdade que a narrativa deve sempre trair”. A busca de Nicole – empregar os mecanismos da narrativa “em uma forma que possa conter a ausência de forma” – bem como a própria impossibilidade de chegada em Kafka, são, em última análise, buscas incompletas,  permeadas por contradição.

A única saída para Nicole é: como no poema de Frost, ela está perdida o suficiente para se encontrar; e ela ousará um salto de fé, uma epifania febril ou um exercício de imaginação. Ela resistirá ao ato de moldar uma história e seu livro sairá com um híbrido: ensaio, livro de memórias, ficção, crítica literária. Talvez, se ela ousasse dar um passo adiante e mergulhasse na poesia – em última análise, quebrando a linguagem e a forma -, ela estaria ainda mais próxima da ausência de forma que tanto deseja (como Epstein no final, tropeçando na graça).

Floresta Escura é um romance sobre fuga – de uma vida para outra, de uma pessoa para outra, fuga da forma e da convenção, fuga de uma narrativa para outra, de Epstein para Nicole e vice-versa. Essa é outra das obsessões de longa data de Krauss: que a literatura permite que nos reinventemos, e entremos no coração de outra pessoa. Aqui encontramos a autora fugindo para uma versão de si mesma, de modo a ir a um lugar onde ela não poderia ter ido de outra forma. Krauss ilumina o Unheimlich de Freud na página: a estranha experiência de ver algo familiar sob uma luz diferente. Ao fazer isso, a autora consegue colocar o leitor no lugar da personagem: como será que nós nos sentiríamos se fôssemos essa narradora, passando por essa situação, sob esse tipo de escrutínio público, escrevendo essa história absurda, descartando a vontade de agradar, descartando, aliás, tudo que é adorável ou extravagante, e fazendo tudo isso pela primeira vez através de uma voz feminina, em narração em primeira pessoa?

Como a personagem Nicole, nós – leitores do romance – também somos convidados a quebrar algo e a deixá-lo exposto, vulnerável e aberto; somos convidados a criar um espaço para a surpresa; a criar um vazio e aceitar o caos e a dúvida; e, finalmente, somos convidados a ousar um salto de fé. Lech-Lecha.

Um pequeno rasgo no tecido da realidade. Ou será que isso se chama empatia?

Texto escrito por Juliana Brina


Essa resenha foi publicada originalmente em inglês, e traduzida posteriormente para o português pela autora.

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